Sobre Inconfidência Mineira. Será verdade?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O MARTÍRIO DE TIRADENTES TERIA SIDO UMA FARSA CRIADA POR LÍDERES DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

por Guilhobel Aurélio Camargo

Ele estava vivo, e muito vivo, um ano depois, em Paris. O "21 de abril" foi fruto de uma história fabricada, que criou um bode expiatório chamado Tiradentes, aquele que levaria a culpa pelo movimento da Inconfidência Mineira. Quem morreu no lugar dele foi um ladrão, de nome Isidro Gouveia.

A mentira que criou o feriado de 21 de abril
A história conta que Tiradentes foi julgado e condenado à morte, tendo sido enforcado no dia 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, no local chamado Campo da Lampadosa, que depois passou a se chamar Praça Tiradentes.
Com a Proclamação da República, precisava ser criada uma nova identidade nacional. Pensou-se em eternizar o Marechal Deodoro, ícone daquele movimento político, mas o escolhido foi Tiradentes. Ele era de Minas Gerais, estado que tinha, na época, a maior força republicana do país, além de ser um poderoso pólo comercial. Jogaram ao povo uma imagem de Tiradentes parecida com a de Cristo. E era o que bastava: um “Cristo da Multidão”. Transformaram-no em herói nacional cuja figura e história, “construídas”, agradavam tanto à elite quanto ao povo.

Quem foi Tiradentes
Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746, na Fazenda do Pombal, entre São José e São João Del Rei (MG). Era filho de um pequeno fazendeiro. Ficou órfão de mãe aos nove anos e perdeu o pai aos onze. Não chegou a concluir o curso primário. Foi morar com seu padrinho, Sebastião Ferreira Dantas, um cirurgião que lhe deu ensinamentos de medicina e odontologia. Ainda jovem, ficou conhecido pela habilidade com que extraía os dentes estragados das pessoas. Daí lhe veio o apelido de Tira-Dentes. Em 1780, tornou-se um soldado e um ano depois foi promovido a alferes, patente militar equivalente à de tenente, hoje. Nesta mesma época, envolveu-se na Inconfidência Mineira contra a Coroa Portuguesa, que explorava o ouro encontrado nas Minas Gerais. Na maçonaria, Tiradentes foi iniciado pelo poeta e juiz Cruz e Silva, amigo de vários inconfidentes. Tiradentes teria salvado a vida de Cruz e Silva, não se sabe em que circunstâncias.

Tiradentes, a Maçonaria e a Inconfidência Mineira
Por ser um simples alferes, Tiradentes não poderia liderar coronéis, brigadeiros, padres e desembargadores, que eram os verdadeiros líderes do movimento. Semi-alfabetizado é muito provável que nunca estivesse plenamente a par dos planos e objetivos do movimento. Em todos os movimentos de libertação acontecidos no Brasil, durante os séculos XVIII e XIX, era comum o "dedo" da Maçonaria. E Tiradentes era maçom, mas estava longe de acompanhar os maçons envolvidos na Inconfidência, porque esses eram cultos, e, em sua grande maioria, estudantes que haviam recentemente regressado, diplomados, da cidade de Coimbra, em Portugal. Uma das evidências documentais da participação da Maçonaria são as cartas de denúncia existentes nos Autos da Devassa, informando que maçons estavam envolvidos nos conluios.
Os maçons brasileiros foram encorajados na tentativa de libertação do país pela recente história dos Estados Unidos da América, onde saíram vitoriosos - mesmo em luta desigual - os maçons norte-americanos George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. Também é possível comprovar a participação da Maçonaria na Inconfidência Mineira, sob o pavilhão e o dístico maçônico do"libertas quae será tamen", que adorna o triângulo vermelho na bandeira mineira, com este fragmento de Virgílio (Éclogas,I,27).
O bode expiatório
Tiradentes era um dos poucos inconfidentes que não tinha família. Tinha apenas uma filha ilegítima e fazia planos para casar-se com a sobrinha de um rico padre, chamado Rolim, por interesses financeiros. De todo o grupo, Tiradentes era considerado como uma “codorna no chão”, o mais frágil dos inconfidentes. Sem família e sem dinheiro, o que ele desejava mesmo era abocanhar as riquezas do padre. Era o de menor preparo cultural e poucos amigos. Portanto, a melhor escolha para desempenhar o papel de um bode expiatório que pudesse livrar da morte os verdadeiros chefes, caso o movimento viesse a fracassar.

A traição
Em 15 de março de 1789, um dos inconfidentes, Joaquim Silvério dos Reis, foi ao Palácio do governador e denunciou todo o grupo, além de Tiradentes, em troca do perdão das dívidas que tinha com a Coroa Portuguesa. Tiradentes, denunciado como líder do movimento - como era de se esperar - foi preso no Rio de Janeiro, na Cadeia Velha, e seu julgamento prolongou-se por dois anos. Durante todo o processo, ele admitiu voluntariamente ser mesmo o líder do movimento, porque tinha a promessa de que o livrariam de uma condenação por pena de morte.
A troca de condenados
Em 21 de abril de 1792, data estabelecida para sua execução, Tiradentes foi trocado, com ajuda de companheiros da Maçonaria, por um ladrão, o carpinteiro Isidro Gouveia, que havia sido condenado à morte em 1790. Ele assumiu a identidade de Tiradentes em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida pela Maçonaria. Assim, no lugar de Tiradentes, quem subiu ao cadafalso para ser enforcado foi o condenado Gouveia. Testemunhas que presenciaram a sua execução se diziam surpresas, porque ali estava alguém aparentando ter bem menos que 45 anos, a idade de Tiradentes na época.
No livro, de 1811, de autoria de Hipólito da Costa ("Narrativa da Perseguição") é documentada a diferença física de Tiradentes com a pessoa que foi executada em 21 de abril de 1792. O escritor Martim Francisco Ribeiro de Andrada escreveu no livro "Contribuindo", de 1921: "Ninguém, por ocasião do suplício, lhe viu o rosto, e até hoje se discute se ele era feio ou bonito...".

O corpo do ladrão Gouveia foi esquartejado e os pedaços espalhados pela estrada até Vila Rica (MG), cidade onde teve origem o movimento da inconfidência. Porém, a cabeça do executado nunca foi encontrada, uma vez que sumiram com ela para que a farsa não fosse descoberta. Os demais inconfidentes foram condenados ao exílio ou absolvidos.

A descoberta da farsa
Em 1969 o historiador carioca Marcos Correa estava em Lisboa, quando viu fotocópias de uma lista de presença na galeria da Assembléia Nacional francesa de 1793. Correa pesquisava sobre José Bonifácio de Andrada e Silva e acabou encontrando próximo à assinatura desse político, que era objeto de suas pesquisas, uma outra, a de um certo Antônio Xavier da Silva. Correa era funcionário do Banco do Brasil, se formara em grafotécnica e, por um acaso do destino, havia estudado muito a assinatura de Joaquim José da Silva Xavier, o verdadeiro Tiradentes. Correa concluiu que a semelhança entre as assinaturas, do tal Antônio e a de Tiradentes, era impressionante.
O sumiço do "mártir"

Com a ajuda dos irmãos maçons, Tiradentes teria embarcado no anonimato, na nau Golfinho, em agosto de 1792, com destino a Lisboa. Junto com Tiradentes estariam sua namorada, conhecida como Perpétua Mineira e os filhos do ladrão morto Isidro Gouveia. Em uma carta encontrada na Torre do Tombo, em Lisboa, existe a narração do autor, desembargador Simão Sardinha, na qual ele diz ter se encontrado em Lisboa, na Rua do Ouro, em dezembro do ano de 1792, com alguém muito parecido com Tiradentes, a quem conhecera no Brasil, e que este ao reconhecê-lo saiu correndo. Há relatos que 14 anos depois, em 1806, Tiradentes teria retornado ao Rio de Janeiro, onde abriu uma botica na casa da namorada Perpétua Mineira, na Rua dos Latoeiros (hoje Gonçalves Dias), vindo a falecer em 1818. Em 1822, Tiradentes foi reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira e em 1865, proclamado Patrono Cívico da nação brasileira.

"É possível enganar parte do povo o tempo todo; é possível enganar parte do tempo todo o povo; mas, jamais será possível enganar todo o povo o tempo todo ".
(Abraham Lincoln)

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